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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Saberiamos

"Poderíamos casar , teríamos um apartamento, tomaríamos café as cinco da tarde, discordaríamos quanto a cor das cortinas, não arrumaríamos a cama diariamente, a geladeira seria repleta de congelados e coca-cola, o armário, de porcarias, adiaríamos o despertador umas trinta vezes, sentaríamos na sala de pijama e pantufas, sairíamos pra jantar em dia de chuva e chegaríamos encharcados, nos beijaríamos no meio de alguma frase, você pegaria no sono com a mão no meu cabelo e eu, escutando sua respiração. Eu riria sem motivo e você perguntaria porque, eu não responderia, saberíamos."

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ao vento

Quem era ela? O que fizeram à ela? Ele nunca soube o motivo de tanta tristeza, embora ela quisesse ser feliz, não conseguia, felicidade era demais, simplesmente demais. Era aos poucos, dividida em milhões de pedaços, fragmentada, irregular, insólita. Um frágil quebra-cabeças do qual não se tinha nem metade das peças. E não sei se doeu, se dói ou se ainda vai doer. O que fizeram comigo? O que fizeram à ela? O que fizeram a nós? Nada. Foi apenas o incontrolável.

José L.

*Texto escrito em novembro de 2009.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Poços

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."

Caio Fernando Abreu