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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ao vento

Quem era ela? O que fizeram à ela? Ele nunca soube o motivo de tanta tristeza, embora ela quisesse ser feliz, não conseguia, felicidade era demais, simplesmente demais. Era aos poucos, dividida em milhões de pedaços, fragmentada, irregular, insólita. Um frágil quebra-cabeças do qual não se tinha nem metade das peças. E não sei se doeu, se dói ou se ainda vai doer. O que fizeram comigo? O que fizeram à ela? O que fizeram a nós? Nada. Foi apenas o incontrolável.

José L.

*Texto escrito em novembro de 2009.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Poços

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."

Caio Fernando Abreu

Aquietou-se

E de uma euforia efusiva, silêncio. As nuvens aos poucos se fecham, o vento aos pouco uiva, o sol aos poucos se vai. Aquietar-se, aquietou-se, quieto. O meu balanço já não se move mais, tuas pernas se quebraram. A água fria, o jornal de ontem, o final do filme.

Uma multidão sem ninguém, o vazio mais cheio, o silêncio mais ensurdecedor, o doce amargo, e os cacos perfurando meus pés. Eu era tudo, hoje nada. Ausência. Aquietar-se, como quem deixa de respirar sutilmente, como quem não reluta ao deixar estar. E nesse silêncio, é que repousam os cacos de vidro, de corações. Aos poucos, da ausência, o sofrimento, aquietou-se.

José L.

*Texto escrito em maio de 2009.