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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Perderia




"A verdade não me faz sentido! É por isso que a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder, eu te perderia.
"

Clarice Lispector

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Saberiamos

"Poderíamos casar , teríamos um apartamento, tomaríamos café as cinco da tarde, discordaríamos quanto a cor das cortinas, não arrumaríamos a cama diariamente, a geladeira seria repleta de congelados e coca-cola, o armário, de porcarias, adiaríamos o despertador umas trinta vezes, sentaríamos na sala de pijama e pantufas, sairíamos pra jantar em dia de chuva e chegaríamos encharcados, nos beijaríamos no meio de alguma frase, você pegaria no sono com a mão no meu cabelo e eu, escutando sua respiração. Eu riria sem motivo e você perguntaria porque, eu não responderia, saberíamos."

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Total

"Chorei três horas, depois dormi dois dias.Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total."

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cuidado

O cara acenou, soltou um sorriso amarelo: cuidado, criança! Lobo também veste pele de cordeiro. Ele disse para você ir embora e sem nenhuma justificativa – banalidade da vida, maldito subjetivismo, terrível setembro – também foi. Então você até pode limpar a casa, pintar as paredes, então, quando os espaços estiverem em branco, quando as prateleiras estiverem vazias, a cama arrumada, a janela aberta: cuidado, criança! Não é porque ele disse que iria embora, que ele realmente tenha ido. Ele até pode tirar o passaporte, conseguir uns vistos. Mas ele não embarca, não embarca não, não sem você.

Então, como bandeirinha no vento, criança, você se balança assistindo aos dias passar, lembrando dele, pensando nele, falando nele, falando dele. Mas nem todo mundo é bom, nem todo mundo tem parque de diversões no coração. Tem amigo que nos vê com o dedo no gatilho e diz: aperta! Infelizmente tem gente que é assim, gosta de compartilhar o seu próprio vazio, o seu próprio egoísmo. Tem sempre aquela coisa, eu não tenho: ninguém precisa ter.

O cordeiro aparece de repente como quem não quer nada. Primeiro ele pasta ali e aqui, espera até que você o perceba. Crianças prestem atenção: raposa é animal selvagem todo mundo teme, ninguém passa a mão, ninguém acaricia, mas essa é a natureza dela. Já cordeiro, é figurado, é sempre macio, é sempre acariciado por todo mundo, cordeiro branquinho, jeitinho de nuvem, entendam: é lobo, apenas lobo em pele de cordeiro.

Você se aproxima, faz um carinho, já era, tarde demais, criança. Depois de algum tempo, ele tira a pele, pronto: é lobo. Sujo, pelo raso, aspecto de quem não come porque a caçada não está fácil, porque quando a pele cai ninguém gosta do que fica. Lobo é traiçoeiro. E o cara faz isso também, se mostra bonito, macio, te leva para lugares novos, tudo parece tão bom, não? Então quando você percebe tarde demais, criança. Você fica tão fascinada com os novos brinquedos, com as palavras, que nem percebe como ele fede e como suas garras estão enterradas em suas costas.

Se parar para pensar, ninguém vai intervir, e quando o lobo estiver na altura do seu pescoço, já era. Então ai que ele, seja a raposa, o príncipe, como você quiser chamar, aparece. Pois tais alegrias violentas possuem fins, também violentos, como escreveu Shakespeare. E ele então, lutará, pois no fundo sabe que sempre existirá aquela criança, ainda pura, e com o tempo as marcas e o cheiro deixado pelo lobo, também iram passar, vai passar. Talvez ele leve um tempo também para curar as cicatrizes, pois as garras de um lobo são bem maiores que as de uma raposa, e se por acaso ele não se curar, saiba criança, morrer de amor, também é no incondicional, viver dele.


José L.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Poços

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Encontro

Havia escrito todas as frases possíveis até então. Em concordância, ou não, as frases sempre eram iguais, não falavam de outra coisa se não da busca que até então nunca cessara. Em uma tarde, de tom diferente das outras, como se o céu estivesse mais azul, como se o vento estivesse mais fresco. Concluiu dentre vagões que interromperia ali sua busca. Pouco importava agora, o sentido do que até então não tinha sentido. A partir daquele momento, tudo mudava. Como havia lido há algum tempo, mude alguma coisa e tudo muda. Era dia, e um cometa atravessou o céu, azul. Interrompeu a busca.

José L.